103 primaveras

26 jan

http://salemwitch.deviantart.com/art/Old-Woman-121374585

Sempre fui um cara metódico. Gosto das coisas em seus devidos lugares, ter parâmetros, traçar metas para objetivos já alcançados pelo simples prazer de ver a “coisa toda” funcionando. Não se trata de um TOC, mania ou patologia de qualquer tipo. Apenas gosto de encontrar ordem nas poucas coisas que consigo controlar. Tomo banho de cima para baixo e da esquerda para a direita, sempre conto até sete gotas de adoçante, mesmo que já tenham caído umas quinze ou mais, arrumo o retrovisor do carro logo após dar a partida só para verificar sem constrangimento se algum pelo do meu nariz está despontando na corrida, entre outras coisas já parametrizadas que não saberia exemplificar, apenas as faço.


Após retirar um grande pelo do nariz, acelerei. Direita, esquerda, direita, direita, reto a vida toda, esquerda no posto de gasolina, parar no farol, uma, duas, três quadras, estacionar debaixo de uma árvore, cumprimentar o Ednei, entrar e trabalhar. Faço este caminho há mais de 10 anos. Emprego estável, vida estável, tudo dentro dos conformes. Dificilmente alguma coisa me fugia aos planos, fosse em casa, no trânsito ou no trabalho. Aliás, se algum dia você não souber onde estou, provavelmente estarei em um destes três lugares, exceto aos sábados e domingos, pois estarei em casa. Se não estiver, morri!

Minha vida parece chata num primeiro momento, mas não é. Sabe aquele jargão que diz “não se mexe em time que está ganhando”? Sigo-o e funciona. Vivo sem sustos ou decepções, e disso me orgulho muito, pois sinto que encontrei a fórmula mágica para a alegria eterna, como um Santo Graal moderno que, ao invés de me dar a vida eterna, permite que eu viva bem por uns bons anos, até que venha a morte e me entregue sua carta de cor violeta, cuja qual não conseguirei perder entre meus papéis. Enfim, fim. Sem sustos ou decepções. Pelo menos era para ser assim. Digo “era” porque houve o rompimento de uma adutora na rua onde eu seguia reto a vida toda, e me vi obrigado a mudar o caminho.

Não fugi muito do planejado, apenas utilizei a rua paralela mais próxima à que eu pegava. Um atraso mínimo, que compensei tirando o pelo do nariz com o carro já em movimento. Caminho novo, tudo novo! A paisagem era absolutamente igual, mudando apenas o padrão das cores das casa antigas que formavam o bairro inteiro. Nesta rua quase não havia árvores, e a única que tinha chamou minha atenção. Fui me aproximando na velocidade permitida, até que cheguei naquela árvore desfolhada, parecendo que havia saído de algum filme de terror, com grandes galhos secos e retorcidos. A casa a qual esta nada frondosa árvore pertencia era igualmente velha, cinza, sem vida. Mas eis que meus olhos se assustam ao me deparar com um ser humano, ali, em meio ao frio que fazia, numa cadeira branca não diferente da árvore e da casa: velha. Sobre ela, uma velha, tão velha quanto a casa, a árvore e a cadeira onde estava sentada. Vestia chinelinhos vermelhos aparentemente feitos de algodão, meias compressoras, saia bege, muitas blusas de frio e um cachecol que dava duas voltas no pescoço e uma ao redor da cabeça, a fim de esquentar as orelhas.

Percebi que, quanto mais o tempo passa, mais difícil é mudar as coisas, e as coisas que não fiz tornam-se as únicas coisas que (não) faço, em um “não fazer, fazendo”. Passei muitas vezes por ali. Tantas que decorei aquela rua, assim como fiz com as outras que percorri nos últimos anos. Tantas que aquele caminho se tornou meu novo caminho, como que por acaso.  Vi algumas casas serem demolidas, outros vendidas, vi aquela árvore ganhar folhas e novos galhos, mas não vi a velha mudar de roupas, se levantar ou qualquer coisa do tipo. Foram meses assim. O tempo esquentou mas a velha não tirou o cachecol. Estava viva sim, pois olhava  para os lados virando levemente o pescoço, mantendo as mãos frágeis sobre o colo, provavelmente para ver o tempo passar de um lado para o outro da vida pacata que levava. Ela tinha seu método e também se orgulhava disso. Admirei aquela pobre criatura que mal conhecia por quase um ano, até que uma adutora se rompeu na rua onde ela seguia reto toda a vida, só que no sentido figurado. Precisava explicar?

A árvore estava viva, nova em folhas, como nunca havia visto nestes meses passando por lá, e a velha permanecia imóvel com seus chinelos, saia e cachecol. À minha frente vinha um grande caminhão que, ao passar pela árvore, acabou dando com a testa na copa da árvore, o que fez com que centenas de folhas caíssem. Algumas, inclusive, ficaram presas ao meu parabrisas. Andava mais devagar do que de costume naquele momento, o caminhão não parou, nem sequer percebeu o que havia feito com a pobre árvore da pobre velha. Ia passando como sempre, mas hoje as coisas mudaram para mim e para ela que, em movimentos letárgicos havia se colocado em pé. Reduzi a velocidade e fiquei vendo-a pelo retrovisor. Levantou-se por completo, tomou uma vassoura de piassava nas mãos e varreu as folhas. Parei. Ela varreu, varreu, fez um montinho, resmungou algo ainda com a vassoura em mãos, e tornou a sentar-se, possivelmente esperando mais quatro estações, até que outro caminhão viesse atrapalha-la que observava o tempo passar, e que passou enquanto ela varria.

Na segunda-feira seguinte vinha pelo caminho, observando a árvore que crescia ao longe enquanto me aproximava. Me assustei ao perceber que não havia ninguém perto dela. “Vende-se”, dizia a placa que tomava conta do local onde antes a senhora cobriria a visão. Tudo havia mudado na minha vida sem sustos. Parei em frente à casa e fiquei assim, parado, por um bom tempo. Acabei sendo abordado por um dos vizinhos que me perguntou se eu gostaria dos dados da imobiliárias. Falei que não e perguntei apontando para o lugar onde ficava a cadeira, assim, como quem não quer nada: “E a senhora?”. Ele respondeu com um tom triste e distante, me olhando com certo orgulho da informação: “103 primaveras!”. Cheguei atrasado no trabalho, mas ninguém ligou. Pedi demissão. Tudo mudou na minha vida sem decepções. Na manhã seguinte eu plantava uma muda de ipê na frente de casa. Não fazia frio, mas usava cachecol.

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