103 primaveras

26 jan

http://salemwitch.deviantart.com/art/Old-Woman-121374585

Sempre fui um cara metódico. Gosto das coisas em seus devidos lugares, ter parâmetros, traçar metas para objetivos já alcançados pelo simples prazer de ver a “coisa toda” funcionando. Não se trata de um TOC, mania ou patologia de qualquer tipo. Apenas gosto de encontrar ordem nas poucas coisas que consigo controlar. Tomo banho de cima para baixo e da esquerda para a direita, sempre conto até sete gotas de adoçante, mesmo que já tenham caído umas quinze ou mais, arrumo o retrovisor do carro logo após dar a partida só para verificar sem constrangimento se algum pelo do meu nariz está despontando na corrida, entre outras coisas já parametrizadas que não saberia exemplificar, apenas as faço.

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106º Microconto

24 jan

Dez passos os separavam.
Um rápido movimento de pulso e pronto.
Era o alt+tab mais rápido da sua repartição.

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105º Microconto

18 jan

“Isso não está dando mais certo. Acho melhor irmos cada um para o seu lado.”

Desde então remam em círculos.

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=T3:D10

16 jan

por @carrico

Preciso de um café.

Control, alt e del com apenas uma mão, bloqueio.

Arrasto a cadeira, levando, sigo em direção ao café.

No caminho vejo rostos conhecidos, aceno com a cabeça, digo “opa”, movo o lábio para alguns e só.

Marli trabalha iluminada pelo monitor.

Belos seios tem Marli.

Marli olha para minha gravata, mas volta ao monitor.

Tento desamassar a gravata com as mãos.

Em vão.

Quem liga?

Faz calor e minhas mangas curtas não evitam o suor.

Vejo meu chefe se aproximar, tomo um papel qualquer da impressora e analiso com importância.

Aceno com a cabeça.

“Trabalho de Marketing”.

Estagiário.

Tomo meu rumo.

Café.

Faz calor e o café não faz sentido.

Tomo mesmo assim.

Olho através da janela.

Prédio, prédio, prédio.

Janelas.

Linhas horizontais, verticais.

Células.

A vida dos outros dentro de uma tabela.

Uns digitam, outros conversam.

Alguns fingem ler com importância certos papeis, enquanto seus chefes passam.

Levo a caneca aos lábios.

A fumaça embaça meu óculos.

Limpo com a gravata e o coloco novamente.

Então vejo em uma janela alguém que me vê nesta janela.

Ele também toma café.

Coluna T, linha 3.

Naquela célula, do outro lado da avenida, a vida acontece dentro de uma tabela.

Aceno com a cabeça, digo “opa”.

Sou retribuído.

Igual, se…

Saio da janela.

Não há nada interessante lá fora.

Largo a caneca na pia.

Belos peitos tem Marli.

Volto às minhas células.

Coluna D, linha 10.

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104º Microconto

11 jan

Construído sem janelas ou portas, era um santuário imaculado, onde joelho algum se dobraria, tão pouco Deus seria adorado.

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103º Microconto

9 jan

Falido, o mágico retiraria da cartola sua última refeição.

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102º Microconto

6 jan

Sua vida estava por um fio.

Pena ele ser telefônico e do outro lado ninguém atender.

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101º Microconto

3 jan

Atrás da orelha o ramo de arruda,
no bolso o pé de coelho e a figa,
nos olhos o blefe mal feito,
na mesa sua própria vida.

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#100 Microconto

28 dez

Gritava da cela impropérios filosóficos de um doido varrido digno de pena.

Ao menos suas palavras eram livres.

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Cincão

21 dez chevette

A bola rolou, atravessou as traves feitas com paralelepípedos, cruzou a calçada e só parou por completo dentro do motor de um Chevette 75 amarelo. Terminava enfim o verão dos garotos em uma periferia qualquer da zona sul, onde todos os garotos serão jogadores profissionais de futebol. Vestiam as camisetas dos seus respectivos times assim que acordavam, isso quando já não dormiam com elas, esperando o Sol nascer e o sono preguiçoso das férias ir embora, para então correr ao campinho improvisado e ali passar o dia. Fazia muito calor naquele ano. Tanto que praticamente todos os meninos preferiam permanecer carecas, a fim de amenizar a situação, ou pelo menos o calor era uma boa desculpa para que suas mães não gastassem dinheiro com os cortes de cabelo do momento, inspirados nos jogadores favoritos de seus filhos. Cinco reais e pronto, todo aquele cabelo desnecessário estava no chão. E foi assim durante um longo período na vida daquelas crianças e cabeleireiros, que como baratas multiplicavam-se no calor. Uns vinham e ficavam duas, três temporadas, mas logo partiam sem grandes explicações, afinal, elas não eram necessárias.

As crianças também mudavam ano após ano. Uns iam embora, outros apenas mudavam, cresciam, ganhavam novas formas, cores, cicatrizes. Viravam homens, pela idade ou pela necessidade. E é exatamente nesta fase de transição que se encontra o grupinho que acabara de perder a bola para o melhor carro da região. E sem bola falavam de mulheres, contavam vantagens e mentiras, disputando quem mijava mais alto, mais longe, o melhor bigode, o mais rápido, entre outras coisas que os animais fazem para disputar território e tornarem-se os alphas da região. Chegada a noite, os que podiam ficar na rua iam à banca de jornal do velho Crispim, onde com apenas uma moedinha eles conseguiam comprar uma boa revista de sacanagem. Sim, revezavam-se. E de maneira muito organizada e respeitosa, o que não vem ao caso. Apenas aproveite a cadeira privilegiada que este autor permite que você se sente para apreciar a vida pacata destes meninos que crescem adubados de vontades e hormônios.

As primeiras folhas que caíam das poucas árvores do bairro eram o sinal de que dentro de alguns dias os cabelos haveriam de tornar-se vastos novamente. Mas isto não foi uma regra entre os do grupo. Lucas manteve-se careca, enquanto os demais iam revelando sua natureza étnica com penteados black, tranças e descolorizantes. Fato é que isto não passou desapercebido, e tão logo um deles apontou, todos começaram a inquirir os motivos da drástica mudança de hábitos, pois Lucas era o que tinha pegado mais vezes a fila do cabelo enquanto Deus distribuía as características para cada um deles, e mesmo assim permanecia liso, como uma bola nova de capotão. Então ele se viu obrigado a abrir-se, quase com a mesma dificuldade que as revistinhas do Crispim ofereciam para serem abertas após as férias. E antes que o leitor ache que trata-se de um exagero da minha parte o rapaz ser obrigado a dar satisfações sobre o cabelo, saiba que, nesta idade, nestas condições, ele não tinha opção, a não ser falar seus motivos, senão ele seria alvo de brincadeiras até as próximas férias ou mais. Coisa de moleques.

Atentos, todos permaneceram calados enquanto ouviam o moço falar. Tratava-se de um novo salão, na rua de trás do campinho, Não exatamente o salão, mas sim a dona dele. Enquanto Lucas a descrevia, era possível observar que alguns deles ficavam alvoroçados dentro de seus bermudões de nylon e calças de moletom, sendo que um deles teve que se ausentar, voltando após alguns minutos, mas com cara de quem viu passarinho listrado. Seu nome era Odete e, como descreveria Caetano, era dona das mais divinas tetas que o bairro já viu. Mais pra gorda do que pra gostosa. Contudo, a imaginação dos garotos era bem mais eficaz do que qualquer dieta ou cirurgia, fazendo-a uma deusa, uma venus, que por cinco reais fazia seu show, muito bem detalhado por Lucas logo que seu amigo voltou da segunda sessão solitária de amor-próprio.

Ao sentar pela primeira vez naquela cadeira, Lucas não fazia ideia do que viria acontecer. Aliás, fazia, mas não esperava que fosse acontecer. Odete o cobriu com uma capa preta que cheirava a amaciante, coisa rara por aquelas bandas, então sacou uma máquina de cortar cabelo que estava espetada na tomada e iniciou os trabalhos. Indo e vindo, ela era meticulosa em sua função, dando atenção a cada uma das saliências do couro cabeludo do menino, sem se dar conta de que seu profundo decote hipnotizava o cliente, que agradecia silenciosamente a Deus pela descoberta que não haveria de acabar por aí. Com as mãos fixas nos braços da cadeira, Lucas percebeu que estava há poucos centímetros das partes baixas da mulher. Seu sistema nervoso estava quase entrando em colapso devido o choque térmico do suor frio da situação com o provocado pelo calor sob aquela capa plástica. Estava enfim explicado o motivo pelo qual Lucas havia deixado de participar das vaquinhas com a galera. Tinha que economizar dinheiro e fôlego para os cortes semanais.

Era como um filme pornô de quinta. Tudo meticulosamente programado e sem grandes mudanças: cadeira, capa, corte, peitos e quase, quase um contato de primeiro grau. E foi assim na segunda, terceira e quarta semana de férias, até que na quinta semana algo fora do script aconteceu, fazendo com que tudo mudasse.

Odete devia estar pronta para algum baile. Mais cheirosa do que nunca, com roupas tão justas quanto a vontade divina, com direito a calça branca colada e uma calcinha teimosa em ficar evidente. Não obstante, ela estava mais distraída do que das outras vezes, ansiosa para a noite, talvez, e foi se aproximando do garoto até que encostou na sua mão. Em choque, o garoto não sabia o que fazer e acabou permanecendo estático, sentindo-a roçar em seus dedos imaginativos. Terminado o corte, Lucas reparou que o olhar da cabeleireira mudara para ele. E, voltando na semana seguinte, mais uma vez, uma mão era acariciada enquanto a outra vagarosamente escorregava para dentro da calça, escondida pela capa. Isso tornou a acontecer duas vezes mais, antes que ele terminasse de contar aos amigos suas aventuras capilares, não sem antes prometer que voltaria no dia seguinte para visitar Odete antes que as férias acabassem.

Luquinhas não voltou ao grupinho no dia seguinte, tão pouco na semana que se passou e, quando procurado, não encontraram vestígios dele nem de sua família. Os vizinhos recusaram-se a dar o paradeiro deles e, como que assustados, simplesmente fechavam as portas, deixando os amigos do rapaz em frente aos barracos, a ver navios.

Os boatos logo correram soltos pela escola com o retorno do ano letivo. Um dos seus amigos, inclusive, foi até o salão da Odete para “obter informações”, porém nem tudo era como o descrito na história. Pela vidraça viu a morena atrás do balcão, fazendo coisa qualquer e logo a reconheceu. As cadeiras eram as mesmas descritas por Lucas, mas as capas, ao invés de pretas, eram transparentes, e na faixada uma placa simples escrita a caneta: “Corto cabelo e pinto”. Ninguém voltou ao local.

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